Dr. Juan Aquino

Artrodese cervical ou prótese de disco? As duas cirurgias podem descomprimir os nervos e a medula, mas têm objetivos diferentes.

Na artrodese, o segmento é estabilizado para promover a fusão. Na prótese, o objetivo é preservar o movimento.

A escolha depende da causa dos sintomas, do número de níveis, das articulações facetárias, do alinhamento, da estabilidade e da qualidade óssea — não apenas da idade ou do nome que aparece na ressonância.

Por Dr. Juan Aquino — Ortopedista e Cirurgião de Coluna | CRM-RJ 52.99624-6 | RQE 28310. Formação e experiência

Qual é a diferença entre artrodese cervical e prótese de disco?

Em muitos casos, as duas operações começam de modo semelhante: por uma pequena via anterior no pescoço, o disco doente é retirado e a estrutura que comprime a raiz nervosa ou a medula é removida. A diferença principal aparece na reconstrução do espaço discal.

  • Artrodese cervical (ACDF): coloca-se um espaçador ou enxerto, geralmente associado a implantes, para que as vértebras daquele nível se consolidem como um bloco estável.
  • Prótese de disco cervical (artroplastia): coloca-se um implante móvel para manter parte do movimento daquele nível.

Portanto, a pergunta correta não é simplesmente “qual é mais moderna?”, mas qual reconstrução é compatível com a anatomia e com o problema daquele paciente. Uma prótese em um segmento já rígido, instável ou com facetas muito comprometidas pode não oferecer a vantagem esperada. Por outro lado, em um paciente bem selecionado, preservar o movimento pode ser uma alternativa à fusão.

Exemplo radiográfico de artrodese cervical
A artrodese cervical busca estabilizar o nível operado e permitir a consolidação óssea.

Artrodese cervical ou prótese: comparação direta

AspectoArtrodese cervicalPrótese de disco
ObjetivoDescomprimir e estabilizar com fusãoDescomprimir e preservar movimento
Movimento no nívelÉ eliminado após a consolidaçãoBusca ser mantido, dentro dos limites do implante e da anatomia
Perfil mais favorávelInstabilidade, deformidade, desgaste avançado ou necessidade maior de estabilizaçãoDoença de 1 ou 2 níveis, movimento preservado, boas facetas e boa qualidade óssea
Limitações típicasRisco de não consolidação e maior carga nos níveis vizinhosSeleção mais restrita; pode ocorrer ossificação, migração, afundamento ou perda de movimento
Uso em vários níveisMais consolidado em situações complexasDepende do caso, do implante e das indicações aprovadas
RevisãoPode ser necessária por pseudartrose, implante ou doença adjacentePode ser necessária por falha mecânica, ossificação, desgaste ou persistência dos sintomas

Essa tabela resume tendências. Ela não substitui a análise das imagens dinâmicas, da tomografia quando indicada, da densidade óssea e do padrão de compressão.

Quando a prótese de disco cervical pode ser considerada?

A artroplastia costuma entrar na discussão quando existe radiculopatia cervical — dor, formigamento ou perda de força no braço — ou mielopatia causada por doença discal em um ou dois níveis, e o segmento ainda apresenta condições mecânicas para funcionar.

  • Compressão bem correlacionada com os sintomas e o exame neurológico.
  • Um ou dois níveis responsáveis pelo quadro.
  • Movimento preservado no segmento.
  • Ausência de instabilidade relevante nas radiografias dinâmicas.
  • Articulações facetárias sem artrose avançada.
  • Alinhamento cervical aceitável, sem deformidade importante.
  • Qualidade óssea adequada.
  • Ausência de contraindicação específica ao modelo de implante.

A idade cronológica isolada não decide. Um paciente mais jovem pode ter artrose facetária importante e não ser bom candidato; uma pessoa mais velha pode manter anatomia favorável. A decisão é estrutural e clínica.

Quando a artrodese tende a ser mais adequada?

A fusão pode oferecer uma solução mais previsível quando o movimento do nível é parte do problema ou quando o segmento não reúne condições seguras para receber uma prótese.

  • Espondilose avançada com grandes osteófitos e perda importante da altura discal.
  • Artrose facetária relevante ou dor proveniente das facetas.
  • Instabilidade, deslizamento ou mobilidade anormal.
  • Cifose ou outra deformidade que exija correção e estabilização.
  • Osteoporose ou qualidade óssea insuficiente para a fixação adequada da prótese.
  • Ossificação extensa do ligamento longitudinal posterior, conforme o padrão do caso.
  • Trauma, infecção, tumor ou cirurgia prévia que altere a anatomia.
  • Doença complexa em múltiplos níveis.

Isso não significa que a artrodese seja “inferior”. Ela continua sendo uma operação estabelecida e útil, especialmente quando a prioridade é descomprimir e estabilizar uma coluna que já perdeu as características necessárias para preservar movimento com segurança.

E quando há mielopatia?

A mielopatia é a compressão da medula cervical e pode causar perda de destreza nas mãos, desequilíbrio, dificuldade para caminhar, rigidez nas pernas e alterações urinárias em quadros avançados. O ponto central é obter descompressão adequada. A prótese pode ser usada em pacientes selecionados, mas instabilidade, deformidade, ossificação extensa, desgaste avançado ou doença multinível frequentemente favorecem uma estratégia com artrodese. A progressão neurológica exige avaliação sem demora.

Vídeo: hérnia cervical e decisão cirúrgica

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C4–C5, C5–C6 ou C6–C7 mudam a decisão?

O nível ajuda a prever qual raiz pode estar comprimida, mas não escolhe sozinho o tipo de implante. Em qualquer nível, é preciso avaliar facetas, mobilidade, altura discal, alinhamento e estabilidade.

  • C4–C5: pode se relacionar à raiz C5 e a sintomas no ombro ou fraqueza do deltoide.
  • C5–C6: é um nível frequente e pode afetar a raiz C6, com sintomas que chegam ao polegar.
  • C6–C7: pode comprometer a raiz C7, com dor para o dedo médio e alteração de tríceps, conforme o caso.

Uma ressonância com alterações em vários níveis também não significa que todos devam ser operados. A correlação com os sintomas, o exame físico e, em situações selecionadas, a eletroneuromiografia ajuda a identificar o nível realmente responsável.

Cirurgia híbrida e doença em dois níveis

Quando dois níveis precisam de tratamento, eles nem sempre apresentam o mesmo grau de desgaste. Em alguns pacientes, pode-se realizar uma cirurgia híbrida: artrodese no nível mais degenerado ou instável e prótese no nível que mantém condições de movimento.

Essa combinação não é uma solução universal. É uma alternativa que depende da anatomia de cada nível, das indicações do implante, da experiência da equipe e da discussão individual de riscos e benefícios. Em outros casos, duas artrodeses ou duas próteses podem ser mais coerentes.

O que os estudos mostram sobre os resultados?

Ensaios clínicos e revisões de longo prazo mostram que artrodese e artroplastia podem proporcionar melhora clínica e neurológica. Em populações bem selecionadas com doença de um ou dois níveis, estudos de dez anos encontraram menor frequência de cirurgias secundárias em grupos tratados com prótese. Algumas diferenças em escalas de dor e incapacidade foram estatisticamente favoráveis à artroplastia, mas nem sempre atingiram uma diferença clínica percebida pelo paciente.

É importante interpretar esses dados corretamente: os pacientes dos estudos obedecem a critérios de seleção. Os resultados não autorizam estender a prótese a pessoas com facetas muito desgastadas, instabilidade, deformidade ou osso frágil. Além disso, “preservar movimento” é o objetivo do implante; não é garantia de que o segmento permanecerá com movimento normal para sempre.

A prótese evita doença do nível adjacente?

A prótese foi desenvolvida, entre outros motivos, para reduzir a sobrecarga mecânica nos níveis vizinhos. Estudos em pacientes selecionados sugerem menos reoperações adjacentes em alguns acompanhamentos de longo prazo. Entretanto, a degeneração dos discos vizinhos também faz parte do envelhecimento natural, e nenhuma cirurgia elimina totalmente esse risco.

Vídeo longo: depoimentos após cirurgias da coluna

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Recuperação: existe diferença?

Como as duas técnicas frequentemente utilizam a mesma via anterior e exigem descompressão semelhante, a fase inicial pode ser parecida. Dor ao engolir, rouquidão transitória e desconforto na região operada podem ocorrer em ambas. A duração da internação, o uso de colar e o retorno ao trabalho variam conforme o número de níveis, a complexidade, o tipo de atividade e a orientação da equipe.

Na artrodese, acompanha-se a formação da consolidação óssea. Atividades de impacto e cargas maiores podem precisar aguardar esse processo. Na prótese, não se espera fusão, mas isso não significa liberação imediata: tecidos, musculatura e estruturas manipuladas também precisam cicatrizar, e a mobilidade deve ser recuperada de forma orientada.

Quais são os principais riscos?

  • Comuns às duas técnicas: dificuldade para engolir, rouquidão, hematoma, infecção, lesão neurológica, vascular ou esofágica, dor persistente e necessidade de nova cirurgia.
  • Mais específicos da artrodese: pseudartrose (falha de consolidação), soltura ou quebra de implantes e doença do segmento adjacente.
  • Mais específicos da prótese: ossificação heterotópica, perda progressiva de movimento, migração, afundamento, desgaste ou falha do implante e maior complexidade em algumas revisões.

Como escolher na prática?

Uma decisão bem fundamentada responde, nesta ordem, às seguintes perguntas:

  1. Há indicação de cirurgia? Muitos casos melhoram sem operação.
  2. Qual estrutura explica os sintomas? A imagem deve combinar com o exame neurológico.
  3. Quantos níveis realmente precisam de tratamento?
  4. Existe instabilidade, deformidade ou compressão extensa?
  5. As facetas e o osso suportam uma prótese?
  6. O objetivo principal é apenas descomprimir ou também estabilizar/corrigir?
  7. Quais são os riscos, alternativas e expectativas realistas para aquele paciente?

Radiografias em flexão e extensão podem avaliar instabilidade e movimento. A tomografia demonstra melhor osteófitos, calcificações e facetas. A ressonância avalia discos, raízes e medula. Densitometria pode ser necessária quando há suspeita de baixa massa óssea.

Precisa decidir entre artrodese e prótese cervical?

Leve as imagens completas — não apenas o laudo — e a lista dos tratamentos já realizados. Uma avaliação individual pode mostrar se a cirurgia é necessária e qual estratégia é mais compatível com a sua anatomia.

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Perguntas frequentes

A prótese cervical é sempre melhor que a artrodese?

Não. Ela pode ser vantajosa para preservar movimento em pacientes selecionados, mas facetas desgastadas, instabilidade, deformidade, osteoporose ou doença avançada podem tornar a artrodese mais segura e coerente.

Quem tem mais de 60 anos pode colocar prótese?

A idade não é uma contraindicação isolada. O estado das facetas, a qualidade óssea, a mobilidade do nível, o alinhamento e as demais doenças têm mais peso.

A artrodese limita muito o movimento do pescoço?

Uma artrodese de um nível elimina o movimento naquele segmento, mas o impacto percebido na mobilidade total pode ser pequeno. Fusões em mais níveis tendem a produzir maior redução. A rigidez também depende da degeneração prévia e da reabilitação.

A prótese pode virar uma artrodese com o tempo?

Pode ocorrer formação óssea ao redor do implante e perda parcial ou total do movimento, chamada ossificação heterotópica. Nem sempre isso causa sintomas, mas reforça a necessidade de seleção e acompanhamento.

É possível substituir uma artrodese antiga por prótese?

Em geral, uma artrodese consolidada não é simplesmente convertida em prótese. Quando surge doença adjacente, avalia-se o nível novo e podem existir diferentes estratégias, inclusive extensão da fusão ou artroplastia do nível vizinho em casos selecionados.

Posso escolher a prótese apenas porque quero manter movimento?

A preferência do paciente é importante, mas a indicação depende de critérios anatômicos e de segurança. Manter movimento em um nível instável ou com facetas muito doentes pode não resolver a dor e aumentar o risco de falha.

Fontes científicas