Por Dr. Juan Aquino — Ortopedista e Cirurgião de Coluna | CRM-RJ 52.99624-6 | RQE 28310.
Dor lombar persistente em uma criança ou adolescente que faz ginástica artística merece atenção. Pode ser muscular, mas não deve ser automaticamente atribuída ao crescimento ou ao treino. O objetivo é identificar a causa e adaptar a atividade, preservando uma participação saudável no esporte.
Dor muscular ou algo além?
Saltos, apoios, giros e movimentos de grande amplitude exigem preparo. Fadiga muscular, espasmos e distensões são possíveis, sobretudo quando aumenta o volume de treinamento.
Porém, sentir dor repetidamente no mesmo ponto, reduzir movimentos para escapar dela ou precisar interromper os treinos merece avaliação. Uma lesão por estresse pode existir sem uma queda marcante.
A ginástica artística envolve aparelhos e exigências diferentes. Não se pode transferir automaticamente dados de atletas de elite para uma criança que pratica poucas horas por semana, nem concluir que qualquer exercício de extensão machuca a coluna.
O que é espondilólise e por que ela importa?
A espondilólise é uma lesão em uma pequena ponte óssea da vértebra, chamada pars interarticularis. Pode estar relacionada a estresse repetitivo. Espondilolistese significa deslizamento de uma vértebra em relação à outra; são condições diferentes, embora possam ocorrer juntas.
Dor piorada pela atividade ou pela extensão da lombar pode levantar essa hipótese, mas não confirma o diagnóstico. A avaliação e os exames, quando indicados, ajudam a diferenciá-la de outras causas. Veja a explicação da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos.
Uma pesquisa em ginastas encontrou resultados que questionavam estimativas anteriores mais elevadas de espondilólise e espondilolistese. Isso reforça que o risco varia entre populações e que não se deve presumir essa lesão em todo ginasta com dor. [1]
Quando investigar e quais exames podem ser necessários?
Procure avaliação quando a dor é recorrente, focal, piora progressivamente ou limita treino e atividades habituais. Dor noturna persistente, febre ou perda de peso sem explicação também precisam ser investigadas.
O médico pergunta sobre início dos sintomas, aparelhos, horas de treino, crescimento e traumas, além de examinar força, sensibilidade e movimento. Radiografia, ressonância ou outros exames podem ser indicados conforme a suspeita; não é necessário pedir todos de rotina.
Não force pontes ou extensões em casa para testar se existe uma fratura. Um exame normal ou uma alteração no laudo precisa ser interpretado junto com o quadro clínico.
Punhos, cotovelos, ombros, joelhos e tornozelos
Apoios das mãos transferem carga para punhos, cotovelos e ombros. Aterrissagens exigem pés, tornozelos e joelhos. Dor nessas regiões não deve ser explicada automaticamente por um problema da coluna.
Um estudo de vigilância de lesões na ginástica feminina universitária dos Estados Unidos descreveu diferentes regiões e mecanismos de lesão. É uma população competitiva específica, não uma estimativa de risco para todas as crianças praticantes. [2]
Dor muscular existe, mas não resume as lesões da modalidade. Inchaço, perda de movimento ou dor óssea localizada exigem atenção.

Como adaptar o treinamento
Avise o treinador quando houver sintomas e suspenda temporariamente os elementos que reproduzem a dor até definir a conduta. Dependendo da avaliação, outras atividades podem continuar; repouso absoluto não é uma regra para todo caso.
A progressão deve respeitar domínio técnico, preparação física e recuperação. Não aumente simultaneamente a dificuldade dos elementos, o número de repetições e o tempo de treino.
Sono, alimentação suficiente e acompanhamento do crescimento fazem parte do cuidado. Restrição alimentar, fadiga persistente e alterações menstruais devem ser discutidas com a equipe de saúde, sem tratar essas situações como exigências normais do esporte.
Fisioterapia na Recuperação e na Volta à Atividade
Quando uma lesão limita a prática, a fisioterapia pode ajudar a recuperar movimento, força e tolerância ao esforço. O plano deve incluir orientação e exercícios progressivos, com metas e reavaliação, conforme o diagnóstico.
Carga, amplitude, volume e complexidade dos exercícios precisam ser reintroduzidos conforme o diagnóstico e a resposta, sem tentar recuperar todos os níveis de esforço ao mesmo tempo. Melhora da dor não é o único critério de retorno. Veja como funciona a fisioterapia para coluna.
Retorno à ginástica e situações de urgência
A volta depende da causa da dor. Pode exigir reabilitação e progressão dos movimentos básicos aos aparelhos e elementos mais exigentes. Melhora da dor não significa, sozinha, recuperação completa de uma lesão óssea.
Após queda com suspeita de lesão cervical, não tente colocar o atleta em pé nem testar sua mobilidade; acione socorro. Perda progressiva de força, alteração do controle urinário ou intestinal e dormência na região íntima exigem atendimento urgente.
Atletas que Enfrentaram Lesões: Casos Documentados
Os casos abaixo distinguem problemas da coluna de outras lesões ortopédicas. As informações vêm de relatos públicos, não de prontuários ou de atendimento realizado pelo autor.
Flávia Saraiva — lesão na coluna
O perfil da Federação Internacional de Ginástica registra uma lesão na coluna em agosto de 2017 e cerca de cinco meses de afastamento. Não especifica ali uma fratura ou hérnia de disco. Fonte do caso.
Rebeca Andrade — ligamento cruzado anterior
Teve três rupturas do ligamento cruzado anterior do joelho direito, com interrupções na carreira e cirurgias. A federação registra que a lesão de 2019 a afastou daquele Mundial. Fonte do caso.
Simone Biles — dor na panturrilha
Em Paris 2024, recebeu avaliação após dor na panturrilha esquerda, mas continuou competindo. Esse episódio não foi apresentado como lesão da coluna nem como afastamento prolongado. Fonte do caso.
O tratamento e o tempo de retorno de um atleta não servem como prescrição para outra pessoa. Esses exemplos não medem a frequência de lesões na modalidade e não demonstram que toda dor seja uma lesão grave.
Dúvidas frequentes
Dor lombar significa que a criança deve abandonar a ginástica? Não necessariamente. O diagnóstico e a resposta ao tratamento orientam as adaptações.
Ter muita flexibilidade protege a coluna? Não garante proteção. Controle, força e carga tolerável também importam.
Toda espondilólise precisa de cirurgia? Não. Muitos casos recebem tratamento sem cirurgia; a decisão depende dos sintomas, da evolução e das características da lesão.
Referências Científicas
1. Prevalence of spondylolisthesis in a population of gymnasts. 2010.
Foto ilustrativa: SpiritedMichelle / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0. Lavi Crain em apresentação na trave. A imagem ilustra a modalidade e não indica diagnóstico ou vínculo com o consultório.
Avaliação Individual da Coluna
Se a dor limita seu treino ou suas atividades diárias, uma avaliação pode esclarecer a causa e orientar o tratamento. Na consulta, consideramos sintomas, exame físico, rotina de atividade e, quando necessários, exames de imagem para planejar os próximos passos.